Crônica: Papos de Quinta à Noite
Cauê Laratta Vasconcelos
Começa assim, num jantar, geralmente. Família reunida; todos reunidos em volta do alimento,
contando, animados, os poucos fatos que estão fora do cotidiano normal, e que ocorreram
durante o dia. Até que, um dos filhos, o mais corajoso no momento (o que não é garantia de
nada) diz, reticente:
— Mãe... O pessoal vai sair amanhã... Andar por aí. Talvez um “futebolzinho”, talvez não... Sabe?
Vagabundear por aí...
A mãe encara o filho nos olhos. O filho não sorri. Antes, ele sorria; agora, não mais. Não pode
demonstrar fraquezas; tenta parecer natural. Então, finalmente, após o silêncio mortal que se fez
à mesa e todas as cabeças virarem em expectativa, vem a pergunta:
— Posso ir?
Murmúrio geral. O pai balança a cabeça; o irmão menor ouve tudo, atentamente, com um olhar
interessado no rosto; a irmã sorri para o frango, descrente.
— Então? — pergunta o irmão, decidido ir até o fim.
A mãe o encara novamente. Tem algo estranho... Os dois preparam seus argumentos. Começa
a briga:
— Aonde você vai?
O filho estuda a pergunta da mãe. Que estratégia ela estaria usando dessa vez? Pensa em cada
vírgula antes de responder.
— Já disse que não sei... Mas em nenhum lugar muito longe. Qualquer coisa, eu te aviso.
Boa resposta, pensa a mãe. Ele está falando sério.
— De fato, eu não me preocupo muito com o lugar em que você está, desde que eu esteja avisada.
Como pretende me avisar?
Essa ele já esperava. Havia começado bem, aberto vantagem. A irmã, agora olhava para ele,
tentando lhe falar alguma coisa. O irmão havia parado de comer, e também o olhava, mas não
podia se distrair. A resposta já estava programada:
— Celular.
A mãe esperava a resposta. Porcaria de celular! Precisava de tempo, argumentos... Os seus já
estavam se esgotando...
— E com quem você vai? Não me diga que é com aqueles seus amigos malucos de novo!
Ele sabia que o problema não eram seus amigos; sua mãe mal os conhecia.
— Na verdade muitos deles não vão: uns estão de castigo; outros estão proibidos de sair...
Lógico que ninguém, muito menos seus amigos, estava proibido de sair. Na verdade, era apenas
para a sua mãe pensar que, pelo menos, os piores não iriam.
A mãe estava quase ficando sem argumentos... Precisava de uma brecha, uma oportunidade... Mas
parecia que, dessa vez, ele viera decidido. Tentou outra saída. Estava quase cedendo... Precisava
de uma chance... Decidiu metralhá-lo logo, para desestabilizar o adversário:
— Que horas? Como você vai? Como volta? E se acontecer alguma coisa? Eu fico muito preocu-
pada com você longe de casa...
— Às duas, eu não volto tarde. Vou de metrô, já tenho passe. Na volta, meu amigo me deixa aqui,
é caminho, não vou incomodá-lo. Qualquer coisa, te ligo do celular. Se o celular quebrar, do
orelhão. Em caso de terremoto, chuva de raios, ou quaisquer cataclismos ambientais ou não, eu
fico na casa do meu amigo mesmo; e te ligo.
Quase dissera “até duas vezes, se precisar”. Isso poderia ter arruinado tudo. Não podia parecer
suplicante. Não agora, que estava tão perto da vitória. Comeu uma coxa para ganhar forças.
Percebeu que seu irmão, agora, mal respirava, e que sua irmã chegara mais perto dele, e segurava
sua mão por baixo da mesa. Sentia-se um herói da família. Se ele conseguisse sair, seria motivo
para a mãe deixar todos os outros saírem também. A comida esfriava, mas isso já não importava
mais: estavam apenas concentrados no calor da batalha.
A mãe olhou para o marido, que tentava se manter calmo, comendo lentamente o macarrão.
Agora, já não adiantava mais sua ajuda. Vacilou. Usou seus recursos cedo demais. Perdeu essa
batalha, mas estava disposta a deixar claro que ela não cederia facilmente, e que, da próxima
vez, vem que tem!
— Ainda assim, não sei se deixo...
— Por favor, mãe. A gente tá combinado isso já faz o maior tempão... Vai todo mundo! Até o
Miltinho!
Claro que não existia nenhum Miltinho, mas isso não fazia diferença agora. Percebeu que sua
mãe respirou fundo (como se fosse dizer: “ai, ai...) Fazer o quê, né? Pode ir, mas só dessa vez!”.
No entanto, na alegria da iminente vitória, ele foi tomar o suco e apanhou o copo errado (o da
irmã) que, agora, estava quase em cima dele, de tão perto. Foi o nervosismo. Tentou dar risada,
e dizer um “opa!”, descontraído, mas sua mãe percebera sua falha.
— Tá bom, eu deixo você ir, mas com uma condição.
Ao som do “deixo você ir” todos na mesa ficaram ligados na conversa, até o frango. Qual seria
a condição? Qual seria a última arma da mãe? Quem venceria dessa vez? O silêncio era ensur-
decedor, e a única coisa que se mexia na mesa, era a fumaça que saía da travessa de macarrão.
Mas a mãe havia notado a grande falha do filho; o escorregão no momento em que cruzava a
linha de chegada. Tinha que dar certo.
A mão da irmã apertou a do irmão mais forte. Quando a mãe virou-se para olhar “pro” pai, ela
disse para o irmão, com o movimento dos lábios: “faça o que ela disser”! Nem precisava. Se ela
pedisse para ele lavar a louça por uma semana, ele lavaria, e ainda limparia o fogão também, pra
ganhar crédito para a próxima batalha. O irmão menor tinha um sorriso trêmulo nos lábios, e
parecia segurar um grito.
A mãe se preparou para falar. Os irmãos nem pensavam. Ela respirou e, finalmente, disse:
— Eu quero o telefone do Miltinho. Deixa comigo. Só pra eu ter um amigo seu de contato, caso
você não consiga falar comigo.
De repente, o filho caiu do pedestal. Foi como se tivessem batido na sua cabeça com a travessa
de macarrão, que, agora, nem fumegava mais. Seus olhos brilharam de ódio. A mãe sorriu com
desdém. Estava desarmado. Sem perceber, deixou seu queixo cair. Fechou a boca. O pai olhava
pra mulher, orgulhoso. Os irmãos esperavam a resposta do mais velho, mesmo sabendo que o
Miltinho era uma farsa, mas não ouve resposta.
— Agora, se você não se importa, vai lá pegar o sorvete pra gente, vai?
O filho levantou, indignado. Tivera a vitória nas mãos, e...
A irmã levantou também. Com uma expressão assassina nos olhos, seguiu o irmão.
O irmão menor, sem nem saber por que, seguiu os dois, automaticamente.
Na cozinha, a irmã gritava com o mais velho, enquanto ele abria o congelador:
— Miltinho? Isso lá é nome de amigo seu?! Como você é idiota!!! Você não consegue nem ao
menos pegar o seu próprio copo?!
— Antes ser idiota, do que ter medo de tentar.
A irmã se calou. Batendo o pé, voltou à sala, agindo normalmente.
O irmão mais novo se aproximou. Colocou a mão no ombro do outro, e falou pela primeira vez
na noite.
— Valeu! O importante é que você tentou! Da próxima vez, você consegue!
E os dois voltaram para a mesa. Abriram o sorvete, e não se falou mais nisso.
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